terça-feira, 3 de maio de 2011

Amizade acontece. Não adianta forçar. Curiosamente, quando olho meu perfil de amigos, todos eles exercem papéis diferentes para mim, ou, em outras palavras, trazem à tona diferentes Elanes só existentes em suas presenças. Em todos, admiro alguma coisa: um jeito, um sorriso, uma habilidade, uma brincadeira, um abraço, dentre outras. Nenhum deles é completamente extrovertidos. De algum modo, há alguma reserva em cada um com a qual me identifico também.

Sair de casa foi decisivo para aprender a me virar melhor e, com isso, falar mais também. Falar, entretanto, não é uma necessidade perene. Só solto o verbo com alguém quando realmente me sinto bem para isso. Poderia medir esse grau de envolvimento em uma amizade pela quantidade/qualidade daquilo que falo. Uma vez reparei nisso. Falo mais e levo conversas de horas com quem me sinto melhor, segura e mais acolhida. Da mesma forma, um sinal de que o outro me conforta é quando ele não se incomoda com o meu silêncio e também eu com o dele.

Ainda bem, que para além de todo ego presente na academia e toda a novidade do contexto carioca, consigo ter amigos. Aqueles que podem falar e silenciar, também me fazendo silenciar e falar. Não adianta forçar. Amizade acontece.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Rotina

Já me falaram que é necessário ter rotina para sobreviver. E realmente, é. Os compromissos exercem sobre nós uma força seminal, já que, em função deles, aprendemos a ter prioridades, dividir o tempo, valorirar o tempo livre etc. Eles são professores que nos cobram todos os dias.

Por outro lado, a esperteza seria aliar rotina ao prazer, o que é bem difícil. Tenho o sentimento de que é facílimo os dias parecerem duros, maçantes, repetitivos. O segredo de encontrar prazer na repetição é que é complicado de desvendar. Até para isso, precisamos de algo que nos coloque para frente, bata em nossa cara e diga: vamos, ande e faça algo de diferente!

Sinto falta de fazer com os dias o que os montadores fazem com os filmes: tirar essa cena daqui e colocar no final, inserir aquele momento do meio no começo, expandir a duração de alguns acontecimentos, dentre outras falcatruas. A sequência inevitável do mundo "real" - do nascer ao pôr-do-sol, da segunda à sexta, do café ao jantar, por muitas vezes, leva-me a desejar escapar da sua rigidez e fazer tudo diferente, jogando a prova e a aula que tenho amanhã pelos ares. Meu lado racional, entretanto, entra em ação e diz: aquieta o facho!

domingo, 24 de abril de 2011

Pós-viagem...

Sei lá por que me bateu uma saudade enorme. Do que deixei, de todos os afetos, de abraço, de família, de lugares, de ares respirados. É como se tivesse sofrido um corte umbilical com um manancial de sentimentos bons. Resultado? Fossa.

Enraizar-se e não sentir a dor da saudade ou senti-la ao sair de perto das suas raízes na tentativa de encontrar possíveis outras? Nesse momento de fossa, reina na mente a pergunta: por que escolhi sair? Não teria uma opção menos conflitante?

Toda sua vida é posta em jogo: crenças, opções, planos, satisfações, abstinências, obrigações, valores, prazeres etc etc. Como a fossa tem água escura e turva, só vejo refletidas coisas negativas: tristeza, insatisfações, tormentos... Sentimento de que a escolha que fiz é errada e não se é feliz. A felicidade foi deixada para trás e é preciso dar a ré, tentando viver tudo de novo em câmera lenta, durando mais e mais.

Sede de vida, amor e abraço.

sábado, 2 de abril de 2011

Mães são (quase) todas iguais

Quando vejo uma mãe parecida com a minha, é como se ela tivesse do meu lado: com as mesmas preocupações, com as mesmas atitudes, com o vocabulário muito parecido, um amor e proteção incontestáveis pela prole. É tão prazeroso para elas ver os filhos bem que não se mede esforços em ajudá-los, afagá-los, agradá-los (até quando alguns filhos nem merecem). O sentimento materno é tão nobre que pode expandir sua atuação até mesmo com quem nem saiu do seu ventre.

Penso na minha mãe como o modelo de mãe. Tanto, que quando vejo mães que não parecem com a minha estranho um bocado... É como se agredissem e derrubassem toda a redoma de significados que minha mãe construiu para mim. Valores, cuidados, lições de moral, histórias... Tudo o que muitas vezes pode parecer excesso é, para os que não tem uma mãe com M maiúsculo, motivo de carência, decepção. Existem Mães e mães: as mães como a Minha e as mães que não fazem questão de exercer a maternidade, que não se resume ao ato de dar à luz, mas ao afeto, sentimento que independe de uma gestação no ventre.

Já tive uma tia que era como mãe para mim e ela nunca teve filhos. Veja só onde chega o sentimento maternal? Ser materno é ter o coração grande, querer ajudar, pensar no filho como alguém merecedor da sua atenção, do seu amor. "Mãe é bicho besta", minha mãe sempre fala. Acredito tanto nessa frase a ponto de estranhar todas as mães que não comportam nela. Posso afirmar que muitas mães passam longe da minha quando o assunto é sentimento materno, porém, não posso negar que, como a Minha, existem várias, com a mesma corujisse e bravura quando o assunto é seus filhos. Vejo minha mãe nessas mães e o sentimento é tão bom que o Ceará fica mais perto de mim.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Sobre estabilidade etc.

Refletindo sobre a opção de uma amiga de não querer ter uma "vida estável" no momento, pego-me, agora, devaneando sobre a minha "estabilidade" e os meus desejos.
Não me considero muito ambiciosa, no sentido financeiro. Levo tranquilamente, no momento, uma vida de estudante e tenho problemas quando me perguntam o que quero fazer daqui a 2 anos, ou depois do doutorado, ou daqui para os 30 anos etc. Não sei. Tenho desejos que pairam, como nuvens sobre a cabeça, sem definições precisas. Meu desejo mais "estável" de todos é que, num futuro próximo ou longínquo, quero um puta emprego (federal, de preferência), para que satisfação e dinheiro não sejam problemas, mas, antes disso, quero fazer muita coisa que uma vida de "instabilidade" me favorece: viajar, botar mochila nas costas, aprender línguas, conhecer pessoas diferentes, lugares diferentes, trocar experiências, fazer laços etc.

A cidade onde estou agora tem me proporcionado muito dessas coisas, porém seria exagero dizer que dela não quero mais sair. A vida itinerante me atrai e, consequentemente, o desraizamento e o inusitado. Não sei a que veia desbravadora da família puxei, mas o fato é que necessito do "novo" e ele, nem sempre, é "estável". Também seria um excesso afirmar que sou uma porra-louca, que não planeja o próximo passo que dá, nem pensa nos outros à sua volta. Penso muito até. Não corto minhas asas, todavia. O grau de "estabilidade" que desgosto é o que nos impede de perseguir sonhos, grandes vontades. Uso o adjetivo "grandes" como forma de dizer que nem toda vontade precisa ser seguida, mas apenas aquelas que estão na espinha dorsal do que se quer da vida. Nesse sentido, considero que sou diferente das minhas amigas mais "porra-loucas". Me identifico com o que poderia chamar de "instável minimanente estável", que leva em consideração o como/o quê/o porquê. Elas desconsiderariam o "como" e o "porquê" facilmente em nome da emoção, do sentimento, do desejo simplesmente.

A "estabilidade", muitas vezes, pode ser pensada de uma forma menos exigente, sem prazo para acontecer, mas também sem o medo de que se tranforme em monotonia. O que me agrada na vida estudantil é poder estar realizando ela agora, em plena juventude, no vigor das virtualizações de futuro. Sem deixar de desejar "estabilidade" (aquela... sem data ainda para ocorrer), vou vivendo o "agora" do meu jeitinho.

sábado, 5 de março de 2011

A ti, que me fazes falta

Não, não me venhas falar sobre o porquê de não existires mais. Depois que fostes, fica tudo muito à mostra... lábios, maçãs do rosto, queixo... tudo parece falar mais do que deve. Lábio superior perde a carapuça, queixo perde a moldura, maçãs ficam sem casca. Em todos esses anos, sabias que me agradavas por demais. No entanto, trataste de dar-me adeus em um sábado comum, semana depois de ir dar-te um trato merecido na barbearia.

Não venhas, agora, exigir-te uma face madura, bem encorpada. Tua textura áspera e sedutora se rendeu à crueldade da lâmina. Não há mais nada que possas fazer, a não ser pedir que o tempo seja benevolente com tuas raízes e que te faça crescer rapidamente, de espinhos a pêlos robustos.

Espero que, em tua nova versão, querida barba, tu não percas teu lado sedutor, de falas recônditas. Renasças para ficar.

p.s.: nada como rememorar textos antigos. Escrito em 2007.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Comentários sobre a tal Lotus Flower do Radiohead

Quem me conhece sabe que levanto bandeira por poucas bandas. Em matéria de música, sou de lua: tem dia que gosto de ouvir essa, no outro aquela, no seguinte aquela outra. Música é completamente vinculada ao humor do momento. Confesso que, em alguns dias, gosto de ouvir sonoridades que me levem para lugares distantes e improváveis, que tocam no corpo e nos levam para fora dele. Nesse sentido, muito me agrada a pegada do Radiohead.

Fui conferir a nova "Lotus Flower" do Radiohead, de maneira cuidadosa, para que as opiniões não influenciassem minha fruição: primeiro ouvi o som, depois o clipe e depois alguma crítica que rolou na internet. Esse foi o meu método e o adotei porque já passei a odiar de cara um cd de uma banda de que gosto muito por ser erroneamente invadida pela reprodução ininterrupta de uma faixa. Dava náusea (e raiva) só de ouvir a voz da companheira de trabalho cantarolando.

Vamos por partes. O som de "Lotus Flower": não é a identidade que adotei para gostar no Radiohead. Não me parece ter intensidade, a dramaticidade que gosto como em "Street spirit" ou "Karma police" (o veelho Radiohead). Ela é "sem sal", como diria os hipertensos, e "sem pimenta", como diria os não-baianos. Certamente, depois que o cd for lançado, essa será uma das faixas puladas, pois ela não me faz decolar. A batidinha repetitiva que perdura no fundo não surpreende, não se transforma ou não é ferida por outra arrancada do som. O que a afeta são apenas as suas breves paradinhas ao longo da música. Senti falta de algo mais visceral.

O clipe: concordo com Jacaré (JACARÉ, 2011), ao dizer que Thom Yorke dramatiza bem os "movimentos intuitivos" da música. O resultado, porém, é estranho, parece que um santo baixa no cara... O vocalista tem toda liberdade para expressar o modo como sente o som, ao fazer o corpo mover-se aleatoriamente, mas não forçaria a barra dizendo que isso é bonito de ver. À excessão dos momentos de contraluz do início, que me lembrou MJ e também trouxe um ar de personagem misterioso. A fotografia, sim, é muito bonita. O preto e branco suaviza a imagem, não deixando a dança mais "estranha" ainda ao acompanharmos o clipe. Os melhores momentos são os de close, em que a barba (tentadora, diga-se de passagem) de Yorke toma o quadro. Uh!

Enfim, os que concordam que me citem e os que discordam que me rasguem.