É Carnaval. E estar em Salvador me fez refletir sobre uma relação entre negros, servilismo e liberdade, metaforizada na figura das cordas.
No dia anterior ao qual fui ao carnaval soteropolitano, assisti a Django livre - último filme de Tarantino, do inglês Django Unchained. O filme traz a história do escravo Django, que se arrasta e é arrastado (na polissemia mesmo do termo) ao encarnar o papel que vai de um negro servil a um típico atirador inveterado de bang-bang. A ficção está aí para ser vista, por isso não vou aqui pormenorizá-la. O que quero destacar, no entanto, é a ranhura que existe entre o carnaval baiano e a predisposição negra à subserviência, esta última presente seja nas violentas cenas de tronco e cordas modeladas por Tarantino ou naquela que leva um imenso cordão humano e subserviente a cercar um bloco (de pessoas) atrás do trio elétrico.
No Carnaval, os "cordeiros" - como são chamados esses homens e mulheres que circundam uma "multidão diferenciada" com a força dos braços em grossas cordas - ganham alguns poucos vinténs para estarem ali no servil papel de isolar um bando - que pagou o abadá do bloco - do resto do povo. Apesar desse papel parecer de menor importância na grande festa da carne, simbolicamente é tão forte quanto a força que eles exercem no empurra-empurra humano.
A corda, ali, é símbolo da cisão, da separação, da filtragem. Fora dela, a multidão indiferenciada, o "povão", é espremida num espaço diminuto que choca com as paredes dos camarotes da elite. O cordão, negro em sua maioria, de feição sofrida, por vezes com luvas nas mãos, impõe a força braçal mais incoerente da Bahia: acorrentai e protegei aqueles que pagam por este solo. É desse servilismo econômico, desse apartheid contemporâneo, que falam as cordas negras do carnaval da Bahia. A liberdade é ali apenas uma falida retórica da terra de todos os santos.
Toda relação seria possível com o desacorrentado Django de Tarantino. A situação do negro escravo no filme põe em pauta, numa situação oitocentista, a dependência miserável entre negros-mercadorias e brancos-endinheirados. Prisões, punições, sofrimento, subserviência, desespero, grades, caixas e cordas. Algumas das situações, quando enquadradas na tela, podem parecer muito mais desconcertantes do que a penúria dos cordeiros do carnaval. É, porém, horripilante constatar que a "liberdade" negra na terra mais afro do Brasil não é nem mesmo aspirada na ruptura dos cordões e correntes sócio-espaciais.
Enquanto Django dança no seu cavalo, a Bahia se debate nos muros totêmicos dos camarotes.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
domingo, 25 de novembro de 2012
domingo, 15 de julho de 2012
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Um dia presentearam Joana com uma viagem.
Ela aceitou de bom grado, alegre e satisfeita. Não sabia, contudo, que estaria levando com ela um pequeno dispositivo que projetaria todas as imagens de suas itinerâncias para aqueles que a presentearam.
Joana foi, voltou e percebera um ar diferente quando falava de suas histórias de viagem. Sentia só a confirmação apática de tudo que dizia nos semblantes dos outros. Falou, falou e depois esimesmou-se. As imagens já haviam falado por ela.
Sem sentir o sabor de uma grande história para contar, ou de uma feição de aprovação de tudo aquilo que dizia, caiu numa depressão violenta. Televisão e computador eram suas únicas companhias.
Certo dia, à janela de seu quarto, Joana ouviu um canto de pássaro. Então percebera que o mundo já falava por si e que suas histórias pouco dariam conta daquela imensidão.
***
O que se passa é resumido da seguinte maneira: queremos, com palavras, dar formas às experiências que vivemos. O problema é que, por alto, podemos resumir o ato experimentar de dois modos: a) de um jeito puro, uma experiência de primeira mão e b) de um jeito intermediado, uma experiência de segunda mão.
Televisão e computador já não seriam mais companhia. Memórias e pensamentos, esses sim.
Ela aceitou de bom grado, alegre e satisfeita. Não sabia, contudo, que estaria levando com ela um pequeno dispositivo que projetaria todas as imagens de suas itinerâncias para aqueles que a presentearam.
Joana foi, voltou e percebera um ar diferente quando falava de suas histórias de viagem. Sentia só a confirmação apática de tudo que dizia nos semblantes dos outros. Falou, falou e depois esimesmou-se. As imagens já haviam falado por ela.
Sem sentir o sabor de uma grande história para contar, ou de uma feição de aprovação de tudo aquilo que dizia, caiu numa depressão violenta. Televisão e computador eram suas únicas companhias.
Certo dia, à janela de seu quarto, Joana ouviu um canto de pássaro. Então percebera que o mundo já falava por si e que suas histórias pouco dariam conta daquela imensidão.
***
O que se passa é resumido da seguinte maneira: queremos, com palavras, dar formas às experiências que vivemos. O problema é que, por alto, podemos resumir o ato experimentar de dois modos: a) de um jeito puro, uma experiência de primeira mão e b) de um jeito intermediado, uma experiência de segunda mão.
As palavras de Joana não era senão uma
interface para com o passado, e a interface é só isso, justamente uma
face intermediária, um hub de vetores que tenta unir o inexperenciável
com o parcialmente recontável. O erro de Joana foi querer ser imparcial e
trazer, com seu ânimo pueril de quem retorna cheia de histórias, uma
experiência de primeira mão impossível de acontecer - mesmo em si,
porque a forma a), pura, não passa de um engodo fenomenológico. Joana
teve de cair na própria ilusão - pela segunda vez, portanto - para
perceber que a forma b), intermediada, também era impossível (o que nos
leva uma espécia de vácuo ontológico em que nada, de fato, consegue
escapar do ilusório). Na impossibilidade de reviver o
sensível-não-sentido, calou-se ainda mais, e precisou aprender a
reinventar, recontar, reapresentar.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Eu fagocito ruas, eu me alimento dos lugares
Faço coleção de lugares na minha memória porque simplesmente adoro caminhar por lugares novos, conectar lugares novos a já conhecidos, perder-me em velhos lugares procurando novos.
Hoje, particularmente, tive uma ótima experiência ao conhecer ruas e ruelas novas no Botafogo, em especial a Rua Fernandes Guimarães, onde fui com um amigo a um restaurante tailandês. Como pano de fundo da rua, uma grande pedra coberta da névoa de um dia chuvoso e, de ambos os lados, casas com fachadas características de um estilo moderno-decadente quase esquecido. Respirei o ar daquela rua de tal maneira que já pouco importava onde iríamos almoçar. Atmosfera calma, confortante, de uma cidade dentro da outra, de um clima pacato, mas nem por isso pouco atraente ou apartado de uma comunicação com as delícias da cidade grande.
Ao fim da rua, avistamos a placa amarela do restaurante do dito almoço tailandês. Desconfiamos que estivesse fechado pela calmaria que aparentava. Mas ao chegarmos mais próximos, entramos, sentamos, almoçamos e conversamos. Atendimento impecável, clima europeu no interior do lugar (decoração com lindos tons de madeira, luminárias laranjas e paredes verdes) e uma impessoalidade vital a qualquer vivente urbano que goste do anonimato. Algumas pessoas entram, outras saem, sem o incômodo de um encontro com conhecidos. Dentro daquele lugar, eu me senti em vários outros: numa cidade americana, em Buenos Aires, em Porto, num restaurante de Londres etc etc. Viajei ali dentro, atraída pelo fora, pela atmosfera, pela identificação de um bom momento com a cidade que construo dentro de mim.
No final de uma rua, uma grande pedra, a névoa, as casinhas e suas fachadas, a placa amarela do restaurante, a caminhada, eu e minha paixão pela ventura urbana.
Faço coleção de lugares na minha memória porque simplesmente adoro caminhar por lugares novos, conectar lugares novos a já conhecidos, perder-me em velhos lugares procurando novos.
Hoje, particularmente, tive uma ótima experiência ao conhecer ruas e ruelas novas no Botafogo, em especial a Rua Fernandes Guimarães, onde fui com um amigo a um restaurante tailandês. Como pano de fundo da rua, uma grande pedra coberta da névoa de um dia chuvoso e, de ambos os lados, casas com fachadas características de um estilo moderno-decadente quase esquecido. Respirei o ar daquela rua de tal maneira que já pouco importava onde iríamos almoçar. Atmosfera calma, confortante, de uma cidade dentro da outra, de um clima pacato, mas nem por isso pouco atraente ou apartado de uma comunicação com as delícias da cidade grande.
Ao fim da rua, avistamos a placa amarela do restaurante do dito almoço tailandês. Desconfiamos que estivesse fechado pela calmaria que aparentava. Mas ao chegarmos mais próximos, entramos, sentamos, almoçamos e conversamos. Atendimento impecável, clima europeu no interior do lugar (decoração com lindos tons de madeira, luminárias laranjas e paredes verdes) e uma impessoalidade vital a qualquer vivente urbano que goste do anonimato. Algumas pessoas entram, outras saem, sem o incômodo de um encontro com conhecidos. Dentro daquele lugar, eu me senti em vários outros: numa cidade americana, em Buenos Aires, em Porto, num restaurante de Londres etc etc. Viajei ali dentro, atraída pelo fora, pela atmosfera, pela identificação de um bom momento com a cidade que construo dentro de mim.
No final de uma rua, uma grande pedra, a névoa, as casinhas e suas fachadas, a placa amarela do restaurante, a caminhada, eu e minha paixão pela ventura urbana.
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