quarta-feira, 27 de março de 2013

A gente sempre quer pensar no sim, mas o não tá ali, disponível como opção para aquelas decisões irruptivas, radicais, resolutivas. É pegar ou largar.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Cordas: livres delas?

É Carnaval.  E estar em Salvador me fez refletir sobre uma relação entre negros, servilismo e liberdade, metaforizada na figura das cordas.

No dia anterior ao qual fui ao carnaval soteropolitano, assisti a Django livre - último filme de Tarantino, do inglês Django Unchained. O filme traz a história do escravo Django, que se arrasta e é arrastado (na polissemia mesmo do termo) ao encarnar o papel que vai de um negro servil a um típico atirador inveterado de bang-bang. A ficção está aí para ser vista, por isso não vou aqui pormenorizá-la. O que quero destacar, no entanto, é a ranhura que existe entre o carnaval baiano e a predisposição negra à subserviência, esta última presente seja nas violentas cenas de tronco e cordas modeladas por Tarantino ou naquela que leva um imenso cordão humano e subserviente a cercar um bloco (de pessoas) atrás do trio elétrico.

No Carnaval, os "cordeiros" - como são chamados esses homens e mulheres que circundam uma "multidão diferenciada" com a força dos braços em grossas cordas - ganham alguns poucos vinténs para estarem ali no servil papel de isolar um bando - que pagou o abadá do bloco - do resto do povo. Apesar desse papel parecer de menor importância na grande festa da carne, simbolicamente é tão forte quanto a força que eles exercem no empurra-empurra humano.

A corda, ali, é símbolo da cisão, da separação, da filtragem. Fora dela, a multidão indiferenciada, o "povão", é espremida num espaço diminuto que choca com as paredes dos camarotes da elite. O cordão, negro em sua maioria, de feição sofrida, por vezes com luvas nas mãos, impõe a força braçal mais incoerente da Bahia: acorrentai e protegei aqueles que pagam por este solo. É desse servilismo econômico, desse apartheid contemporâneo, que falam as cordas negras do carnaval da Bahia. A liberdade é ali apenas uma falida retórica da terra de todos os santos.

Toda relação seria possível com o desacorrentado Django de Tarantino. A situação do negro escravo no filme põe em pauta, numa situação oitocentista, a dependência miserável entre negros-mercadorias e brancos-endinheirados. Prisões, punições, sofrimento, subserviência, desespero, grades, caixas e cordas. Algumas das situações, quando enquadradas na tela, podem parecer muito mais desconcertantes do que a penúria dos cordeiros do carnaval. É, porém, horripilante constatar que a "liberdade" negra na terra mais afro do Brasil não é nem mesmo aspirada na ruptura dos cordões e correntes sócio-espaciais.

Enquanto Django dança no seu cavalo, a Bahia se debate nos muros totêmicos dos camarotes.

domingo, 25 de novembro de 2012

Noite em que Nova Iorque parece quieta, tamanho o sentimento de compromisso e inquietação está aqui dentro. Palavras corretas para escrever. Falta isso. Toda a coragem que deveríamos ter em um blog e que não temos em outros papéis. Ouvindo WBGO Jazzzz.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Um menino, um bandido
Às vezes me preservo
Noutras, suicido

domingo, 15 de julho de 2012

Além de carne e osso, eu sou um bicho cheio de palavras, sentimentos, pensamentos, que excedem o tecido epidérmico e explodem mundo afora.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Um dia presentearam Joana com uma viagem.
Ela aceitou de bom grado, alegre e satisfeita. Não sabia, contudo, que estaria levando com ela um pequeno dispositivo que projetaria todas as imagens de suas itinerâncias para aqueles que a presentearam.

Joana foi, voltou e percebera um ar diferente quando falava de suas histórias de viagem. Sentia só a confirmação apática de tudo que dizia nos semblantes dos outros. Falou, falou e depois esimesmou-se. As imagens já haviam falado por ela.

Sem sentir o sabor de uma grande história para contar, ou de uma feição de aprovação de tudo aquilo que dizia, caiu numa depressão violenta. Televisão e computador eram suas únicas companhias.

Certo dia, à janela de seu quarto, Joana ouviu um canto de pássaro. Então percebera que o mundo já falava por si e que suas histórias pouco dariam conta daquela imensidão.


***

O que se passa é resumido da seguinte maneira: queremos, com palavras, dar formas às experiências que vivemos. O problema é que, por alto, podemos resumir o ato experimentar de dois modos: a) de um jeito puro, uma experiência de primeira mão e b) de um jeito intermediado, uma experiência de segunda mão.

As palavras de Joana não era senão uma interface para com o passado, e a interface é só isso, justamente uma face intermediária, um hub de vetores que tenta unir o inexperenciável com o parcialmente recontável. O erro de Joana foi querer ser imparcial e trazer, com seu ânimo pueril de quem retorna cheia de histórias, uma experiência de primeira mão impossível de acontecer - mesmo em si, porque a forma a), pura, não passa de um engodo fenomenológico. Joana teve de cair na própria ilusão - pela segunda vez, portanto - para perceber que a forma b), intermediada, também era impossível (o que nos leva uma espécia de vácuo ontológico em que nada, de fato, consegue escapar do ilusório). Na impossibilidade de reviver o sensível-não-sentido, calou-se ainda mais, e precisou aprender a reinventar, recontar, reapresentar.

Televisão e computador já não seriam mais companhia. Memórias e pensamentos, esses sim.

quinta-feira, 5 de julho de 2012


Como você consegue ser tão chata? - Me pergunte.
Por que você pergunta com tanta chatice? - Você consegue.