segunda-feira, 17 de maio de 2010
Das obrigações intermináveis
Atire a primeira pedra quem nunca se sentiu deslocado/a em uma conversa sobre algum livro que não tenha lido. Inúmeras vezes já passei por isso. E nesse fim de semana, tive contato com o livro do professor de Literatura na França, Pierre Bayard, que compartilha publicamente essa angústia da "não-leitura" com todos nós, eternos devedores de leituras. O livro é "genial", como falou o cara que me apresentou a Bayard. Somos obrigados a termos lido tudo, quando, de fato, ninguém leu tudo e nunca vai ler! Atuamos, em nossas vidas acadêmicas ou de leitores cotidianos, em uma parcela ínfima de tudo que já foi publicado e devemos aprender a lidar com essa sensação de incompletude "intelectual" pelo resto de nossas vidas. Bayard constrói uma crítica pertinentíssima à interdição do assunto da "não-leitura" ao mesmo tempo que confessa suas próprias experiências de leituras não realizadas. Essa ideia caiu como uma luva à minha crise atual. Sinto-me afogada por leituras obrigatórias e "em atraso". E o que Bayard nos ensina é como aprender a falar de livros mesmo tendo só os folheado ou lido apenas algumas de suas passagens, importando, acima de tudo, as relações que fazemos entre determinado livro e outros que conhecemos. Trata-se da nossa realação pessoal com a leitura. Qual o valor de determinada leitura se dela não posso estabelecer conexões com o mundo fora dela? Nem precisei terminar (ainda) o livro de Bayard para dele viajar em ligações com Benjamin, Foucault, o ato de ensinar, de pesquisar, de criar. Somos seres que criamos, para além de qualquer livro, podendo conversar apaixonadamente sobre ele e nossas vidas em nossas salas de estar. Dentre os incontáveis clássicos, estamos nós, criativos não-leitores, potenciais Bayards.
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2 comentários:
é como eu disse...genial!rs.
A pressão sobre as leituras em geral é tanta que só hoje parei para ler de fato - e não apenas passar os olhos - esse seu texto. Veja como me senti em relação a um blog. Imagine como se sinto em relação a um livro ou um artigo. É dose.
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